O século dos 1800 foi muito rico em matéria arqueológica, no descobrimento e divulgação de extintas civilizações monumentais no Egito, na Grécia, na Mesopotâmia e nas Américas, só conhecidas na Europa por raros eruditos leitores de manuscritos deixados pelos gregos e romanos.
O Imperador Pedro II, tão logo os afazeres de Estado permitiram, esteve no Egito para conhecer as pirâmides de Gisé. O Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) fundado e estimulado pelo monarca, tomou a si a missão de investigar as riquezas arqueológicas do país, recebendo informes de seus correspondentes nas províncias. Exatamente no arquivo do IHGB, encontramos o manuscrito, datado de 1871, anunciando a descoberta de uma “Cidade Perdida” na cordilheira dos Pirineus da Província de Goiás, assinado pelo Dr. François Henry Trigant des Genettes, médico e naturalista francês. Mais adiante será o assunto principal deste artigo.
Em 1886, o IHGB notificava (seguindo uma informação do Ceará), a existência de uma cidade petrificada no Piauí. Era o descobrimento do magnífico Parque Rupestre de Sete Cidades, conhecido em todo o país e visitado desde então por milhares de pessoas.
No entanto, só em 1926 (quarenta anos depois), um explorador alemão, Ludwig von Schwennhagen, examinou detidamente as formações, fez um mapa delas e verificou que eram sete os agrupamentos ruiniformes. E os denominou Sete Cidades do Piauí, publicando em livro um estudo a respeito. Rapidamente Sete Cidades ficou mais conhecida com seu Parque Nacional criado desde 1961.
Visitamos Sete Cidades na década de 70 e causou-nos forte impressão. Hoje, Sete Cidades caiu em certo ostracismo e Vila Velha, no Paraná, ocupou sua posição turística, mais próxima da modernidade. Não vira, nem no velho nem no novo mundo, um campo ruiniforme com tal extensão – até recentemente, pelo menos – com a redescoberta em, 2004, da Cidade Perdida dos Pireneus, descrita por des Genettes, em 1871. Infelizmente a cidade dos Pirineus não teve um estudioso como von Schwennhagen e permaneceu ignorada por mais de 130 anos desde a sua descoberta por des Genettes. Acredito que o relato do naturalista francês ao IHGB jamais tenha sido impresso.
Segundo uma publicação do Parque Nacional de Sete Cidades (EDUFPI, Teresina, 2000) o Parque tem hoje 6.200 hectares e o conjunto rupestre 250 ha. Conforme um levantamento preliminar, o conjunto rupestre dos Pirineus supera 500ha e deve ser hoje a maior cidade de pedras do continente e uma das maiores do mundo.
No Brasil são conhecidos outros conjuntos rupestres, também muito visitados, como Vila Velha, no Paraná. Em Goiás, são sabidos o de Paraúna e o da Serra Dourada, na Cidade de Goiás, com suas altas e belas formações. Mas suas áreas são bem menores do que a Cidade Perdida, descoberta em 1871 pelo Dr. Trigant des Genettes, na Serra dos Pirineus, e depois novamente perdida por mais de século.
As notícias sobre cidades perdidas no Brasil vem do século dos 1500. Nesse período, bandeirantes baianos acreditavam ter atingido uma cidade perdida nas curiosas Serras do Sincorá, que conheci na Chapada Diamantina (BA), belas formações rochosas naturais de uma luminosidade invulgar. Duvido muito porém que tenham sofrido adequações antrópicas, como aquelas magníficas de Urkuk, na Turquia,ou Meteora, na Grécia, ou Petra, na Jordânia.
Freqüentemente as cidades perdidas apareceram no imaginário e no noticiário histórico brasileiro, a exemplo da famosa Manoa, capital do mítico El-Dorado, inutilmente procurado por diversas expedições portuguesas e espanholas nas regiões centrais do continente. Pode até ser que em sua busca (ou de outras riquezas) alguma expedição espanhola tenha atingido a célebre linha de Tordesilhas (uma ficção geográfica que dividia os dois reinos) e que passa próximo à Cidade Perdida dos Pirineus, em frente a qual existe o belo vale chamado dos Castelhanos, no município de Pirenópolis, no Planalto Central goiano. Teriam sido eles também a dar o nome de Pirineus aquele grande maciço rochoso, quase uma “ilha” residual arqueana (um inselberg gigantesco, no dizer dos geólogos) – como gosta de sintetizar o Dr. Jamilo Thomé.
Porém, a mais badalada das cidades perdidas, já no século XX, foi a do Roncador, no rio das Mortes, em Mato Grosso, a poucos quilômetros da fronteira goiana, em cuja busca desapareceu o explorador inglês, Sir Harry Percy Fawcett, em 1025. Em seu encalço vieram uma dezena de expedições estrangeiras, três das quais também desapareceram. Segundo relatos da época, Fawcett teria encontrado uma civilização nos subterrâneos da Serra do Roncador e decidido viver ali para sempre.
Fato é que a denominação Pirineus, velha como a colonização de Goiás, deve pagar seu tributo aos Mons Perinicus dos romanos, nome por que designaram os Montes Pirineus na Europa, fronteira natural entre a Gália e a Ibéria (hoje divisa entre França e Espanha). Atravessamos umas duas ou três vezes os Pirineus europeus, entre os quais existe o insignificante principado de Luxemburgo. Lembro-me de transitar por altas serras frias, cobertas de florestas que se iam amenizando em montes arredondados, abertos para vales fundos e verdes, que muito lembram os derramamentos a norte e a leste dos Pirineus goianos, aos pés do qual espraia-se o Planalto Central brasiliense.
Arqueólogos e exploradores encontraram nos Mons Perinicus europeus extensas cavernas, em cujas mais remotas profundidades descobriram salas rituais ornamentadas com pinturas e esculturas dos mais antigos povoadores da Europa.
A grafia do nome Pirineus, vem diretamente da grafia francesa Pirenées (Pirenê), conforme gostavam de escrever nossos eruditos no século XIX, tanto que Pireneus e Pirenópolis escrevem-se com aquele esdrúxulo “e” no meio, que quase todo mundo pronuncia “i”.
Em fins do século XIX, houve a mudança do nome colonial da cidade de Meia Ponte, província de Goiás, para Pirenópolis, literalmente a pólis (cidade em grego) dos Pirineus.
O Dr. François Henry Trigant des Genettes, nasceu em 1801, próximo a Bordeaux, na França, de uma família da nobreza provincial. Um de seus avós tinha o título de Conde d’Arlas. Formou-se em medicina em Brest e seguiu para o Brasil, depois de uma estadia no Marrocos, norte da África, onde deve ter conhecido ruínas de cidades romanas. Segundo seu biógrafo Jarbas Jayme – grande genealogista brasileiro do século XX, um pirenopolino costumaz - viveu o Dr. Francisco (como era chamado) muitos anos no Triângulo Mineiro, nome que deu ao antigo sertão ex-goiano da Farinha Podre e ali tinha escolas de primeiras e segundas letras, além de ter fundado seus primeiros jornais, conclamando à independência do Triângulo, tese que vez por outra ressurge na história.
Teve garimpo de diamantes nos ribeirões Bagagem e Água Suja, naquela região, onde enriqueceu, dona de sofisticado lupanar, a famosa Dona Beja de Araxá e onde encontrou-se o também famoso diamante Estrela do Sul, considerado à época o maior do mundo. Parece que des Genettes, no seu garimpo, não foi muito exitoso. Descobriu porém fósseis nos aluviões, de que fez um desenho no manuscrito do Rio de Janeiro e que me pareceu ser o de um arqueopterix, o gigante alado do mesozóico.
Já beirava os 70 anos o nosso doutor quando chegou a Pirenópolis, disposto a fundar uma escola para jovens, que manteve por três anos. Desde esta época, colaborou com artigos volumosos sobre a geologia da região e do país, para o jornal “Província de Goyaz”, editado na velha capital de Goiás pelo poeta desembargador Félix de Bulhões e pelo geólogo e musicista notável que foi o africano, maestro Marques Tocantins, casado com a branca, bela e aristocrática Ana Xavier de Barros, também musicista e compositora. Tudo isto cerca de 15 anos antes da abolição da escravatura no Brasil.
Voltou o Dr. Des Genettes, anos depois, a Goiás e já viúvo, ordenou-se sacerdote na matriz de Pirenópolis. Foi vigário de Ipameri e Luziânia, onde escreveria um extraordinário relato sobre a região do Distrito Federal, que publiquei parcialmente. Finalmente falece em 1889, em uma povoação que fundara próximo a Ipameri, terras novas, para onde levara seus paroquianos pobres de Santa Luzia de Goiás.
Mas o que escreveu o Dr. des Genettes na sua “Descripção da Cidade Perdida da Cordilheira dos Piryneos da Província de Goyaz”, em 1871, endereçada ao IHGB e dedicada ao Imperador – quase um arqueólogo - D. Pedro II?
No momento, tenho em mãos apenas a resenha que fiz do manuscrito do IHGB (há uns dez anos), prometendo para tão logo possa, redescobrir a íntegra no Rio de Janeiro. Dizia o Dr. des Genettes (segundo o meu resumo), ter descoberto nos Montes Pirínicos a Cidade Perdida dos Atlantes, cobrindo uma grande extensão de terreno, com muralhas para fortificações, largas ruas e praças, ao longo dos quais observou ruínas “muito erodidas” de estátuas, de templos gigantescos, teatros, palácios, residências e túmulos....
Parece-me que des Genettes tomasse como referência as grandes ruínas da Roma clássica e de centenas de gravuras (e de fotografias) que circulavam a sua época sobre as escavações na Mesopotâmia e no Egito.
De fato, na época, era difícil diferenciar ruínas arqueológicas de fenômenos naturais. Algumas das principais cidades da antigüidade, compareciam aos olhares apenas como “tell” (morros, em árabe) e o que conduziu a sua descoberta foram principalmente relatos históricos e geográficos escritos cerca de 2.000 anos antes. Depois, as areias e os aluviões a tudo cobriram e a relva nasceu por cima.
No Brasil e nas Américas em geral sempre houve uma presunção (destituída hoje de argumentos sólidos), de uma ocupação recente.
Niède Guidon mostrou porém nos seus sítios piauienses de 50, 40, 30, 20, e 10 mil anos, restos humanos seqüenciais (às vezes ligados a pinturas) que são os mais antigos das Américas e tão antigos quanto o paleolítico europeu.
O monumento de Sete Cidades, não longe dali, contém pinturas que em tudo remetem às pinturas das serras erodidas de São Raimundo Nonato que também possui belas áreas ruiniformes.
Conheci a Cidade dos Pirineus, em aproximações sucessivas, desde abril de 2002. Levara-nos ali uma excelente fotografia aérea dos sobrevôos cartográficos do Planalto, de 1964, quando pesquisávamos para a Metago, ruinas de lavras de ouro na Serra Dourada e na Serra dos Pirineus, onde fotografamos trabalhos grandiosos da mineração antiga, ao contrário do que afirma nossa historiografia atual.
Na referida foto aérea vê-se bem (com lente de aumento) a magnífica estrutura da Cidade de Perdida, semelhante a um tabuleiro de xadrez, cujos rifts entrecruzados, de fato, lembram as ruas de uma cidade.
O primeiro impacto das viagens que fizemos, foi a visão do Vale das Pirâmides, com suas duas formações areníticas piramidais, a maior delas com estimáveis 150 metros de altura (um prédio de 50 andares) até o fundo do abismo em que lança sua face para leste. Pelo fato de ter a mesma angulação com a pirâmide menor é que os colonizadores devem ter dado o nome de Córrego Dois Irmãos ao riacho a sua frente, por referência aos dois morros piramidais ïrmãos”, com sua única face visível. Nas outras faces as formações são elevados morros de material xistoso, informou-nos, em campo, o Dr. Jamilo Thomé.
Visto pelo estereoscópio (e também de helicóptero) existe anexo ao território das pirâmides um dos mais profundos abismos que já me foi dado observar, talvez repositório de uma fauna e flora especiais, com possíveis cavernas atingindo os aqüífero da região. Um enigma a desvendar.
Qualquer país do planeta se orgulharia daquele cenário e faria todo possível para preservá-lo, entre seus ícones paisagísticos. E com rapidez, pois são visíveis na paisagem a deterioração feita por desmatamentos e extração de pedra clandestinos, de baixíssimo retorno econômico e social e de alto risco ambiental.
Naquele dia 21 de abril de 2002, eu e minha mulher, esfolamos nosso inadequado carrinho naqueles picos e andamos à volta da serra em frente, dita de São Gonçalo, onde topamos e fotografamos alguns vestígios da Cidade Perdida do Dr. des Genettes, cujas descrições imediatamente me vieram à cabeça. Cerca de 130 anos depois, confirmava-se a Cidade Perdida do Dr. des Genettes.
Uma das razões de ter demorado tanto é que pelas atuais e antigas estradas de acesso, é muito difícil visualizá-la como um todo. Só poucos homens a pé e alguns cavaleiros, como o Dr. des Genettes, poderiam tê-la conhecida nos séculos anteriores.
Meses depois, conheci, por absoluto acaso, o Dr. José Sahium, médico psicanalista em Goiânia. Numa conversa rápida, verifiquei, que aquela área principal ruiniforme do morro de S. Gonçalo lhe pertencia. Disse-me desejava constituir ali uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), cuja legislação restritiva obriga o proprietário - mesmo em caso de venda a terceiros ou em sucessão hereditária - a manter preservação integral da área determinada dentro da reserva.
De posse de diversas informações e fotografias, mostrei-as ao respeitado amigo pirenopolino Dr. Pompeu de Pina, que nos levou ao encontro do governador Marconi Perilo. Mostrei para nosso jovem governador algumas das fotos que fizera e dos desdobramentos turísticos que poderiam conter. Respondeu-me que era o tipo de ação que gostava e que eu deveria prosseguir no estudo com o apoio do governo goiano. Sugeri que o então Secretário de Meio Ambiente, Paulo de Souza, coordenasse uma comissão de técnicos de diversas áreas para uma visita à cidade, o que aconteceu finalmente em 21 de dezembro de 2004, dia propício em que ocorre o solstício de verão no hemisfério sul.
E até aqui estamos, em janeiro de 2005, organizando um encontro com os companheiros de jornada. Fica porém a questão mediada: seria a Cidade Perdida dos Pirineus apenas um capricho geológico, ou ruínas muito erodidas que sofreram no passado reesculturas antrópicas como Meteora na Grécia, Urkuk na Turquia e Petra na Jordânia, as três mais importantes Cidades de Pedras do Planeta?