No Rio Vermelho, no Bandeirinha, na Barra

Em sua segunda e definitiva expedição no Goiases, em 1726, com animados soldados e técnicos em mineração, o Anhanguera deve ter descoberto o ouro aplatinado - ouro branco - de Caldas Velhas (pousada) e deve ter reencontrado o genro João Leite, que ficara esperando, com 40 homens, em uma roça no Ribeirão João Leite, nas imediações de Goiânia. Entra finalmente o Anhanguera na bacia do Rio Vermelho pela chapada de Ouro Fino, onde os flancos abruptos ao norte da Serra Dourada desmancham-se em suaves patamares de 800 e 700 metros e tal foi, por dois séculos, o melhor acesso ao Rio Vermelho e à Cidade de Goiás. A primeira estrada de Goiás. A Estrada Real, hoje abandonada.

Uma vanguarda da nova expedição encontra alguns índios goiases nas proximidades do rio. Interrogados, indicam no trecho em que o Vermelho recebe o ribeirão Ferreiro, a tão buscada meta do Anhanguera. A tapera do que fora o acampamento do pai em 1682. E os índios goiases.

Seleciona então o Anhanguera uma escolta de sua alta confiança - uma bandeirinha - para descer imediatamente o rio, tão promissor de riquezas pelo que já demonstrara nos seus altos afluentes em Ouro Fino e Ferreiro.

E assim ficou até hoje, tatuado na linguagem e na paisagem da Cidade de Goiás, o Morro da Bandeirinha, aquele que na seqüência do Morro São Francisco, acompanha, à direita, o viajante que ultrapassa Goiás rumo ao Araguaia.

O grande morro que trespassa de Ouro Fino para a Cidade de Goiás, fonte da Carioca e Cachoeira das Cambaúbas. As cambaúbas e os mandiocões são fito-indicadores de degradação do Cerrado, quando perturbado por antigas roças ou lavras.

Descendo mais o rio, abaixo das cachoeiras ditas da Cambaúba - apuradoras naturais de ouro (devido a seu peso máximo entre os metais), topam um especialmente bojudo depósito aurífero - como relatam todos os cronistas - no lugar da ponte do Rosário, entre a casa de Cora Coralina e a Cruz do Anhanguera atuais. Deveria ser de meados para fins do ano de 1726.

Continuou a bandeirinha Anhanguera descendo o Vermelho até sentir sua perda aurífera na barra do Rio dos Bugres, onde pelo já muito adiantamento das águas, montou roças, ranchos e uma palhoça para orações, futura igreja da Barra, Buenolândia, atual que todavia lá remanesce, sempre precisando de uma reforma. De mais a mais, como registra o cronista Silva e Souza, na Barra, os índios fizeram-se mais fortes, numerosos e agressivos e o Anhanguera com sua pequena comitiva não ousou atravessar novos perigos até as chuvas cessarem.

Mandou o sobrinho Antônio de Araújo continuar nos ranchos das Cachoeiras das Cambaúbas. E talvez a um ferreiro da expedição tenha confiado sua autoridade delegada para o banco aurífero que depois lhe tomou o nome: Ferreiro. Depois das águas, o sobrinho Araújo postou-se também em Ouro Fino, onde contrariou uma enorme expedição de novas pessoas vindas de São Paulo, vendendo aos recém chegados famintos, produtos por preços exorbitantes.

Descendo com os novos garimpeiros para o descoberto das Cambaúbas, Antônio Araújo não conseguiu manter sua autoridade delegada. O Superintendente Anhanguera, em 1727, voltou às Cambaúbas, montou seu rancho de orações e manteve autoridade sobre as riquíssimas descobertas que se seguiam em crescendo no córrego Bacalhau e em todo o campo aurífero onde hoje assenta-se a cidade de Goiás.

E havia ouro em toda a volta do terreno e água abundante para apurá-lo da terra e dos cascalhos. Metade ou mais das casas e terrenos murados do centro histórico da Cidade de Goiás apresentam vestígios - rebaixamentos de terreno sobretudo - hoje encobertos por altas árvores e entulhos domésticos, com provável origem na mineração antiga.