As mais extensas e quilométricas catas de ouro antigas da Cidade de Goiás e dos altos formadores do Rio Vermelho, parecem-me ser as dos terrenos argilosos, entremeados de grossas lajes de arenito. Fornecem o leito de aplainamento escorrido da Serra Dourada - sobre o qual transcorre o trecho serrano da moderna estrada que liga a Cidade de Goiás a Goiânia - desde o centro histórico de Goiás até o topo da Serra Dourada. As profundas valas que a acompanham ao lado, por muito tempo supus - e todos nós supusemos - que fossem profundas erosões causadas pela construção da atual estrada de asfalto. Não são, geralmente.
Qualquer observador, por elas andando e observando sua orientação, rapidamente entenderá que não são conseqüências das obras secundárias da estrada - podem até terem sido agravadas por elas -, mas são autênticas cavas de ouro bandeirantes, velhas de quase 300 anos e servindo suas antigas valas de caminho para erosões provocadas pelas enxurradas mais modernas.
Muitos dos quintais das casas de Vila Boa, quando divididos por muros de pedra, muitos ainda incólumes, são a conseqüência, e não necessariamente a causa, do cercamento dos velhos terrenos auríferos. Ou seja: quando a grande ou pequena mineração começava a escavar os terrenos argilosos da Cidade de Goiás, logo surgia, misturado, o capeamento estrondado de uma era geológica mais antiga, que produzia o arenito duro de lajes em camadas, nacionalmente conhecidas hoje como lajes Goiás ou pedras de Pirenópolis.
Esta camada dura e dispersa entremeava, porém, outra camada argilosa rica em ouro. Então, para comodidade e limpeza das lavras que se aprofundavam, as lajes encontradas eram juntadas para erguerem o muro de pedras que deveria limpar a sagrada lavra daqueles calhaus, para que se prosseguisse a mineração. Limpeza de entulhos: eis que deve ser a verdadeira origem da disseminação dos muros de pedra pela Cidade de Goiás, pelo itacolomito de Ouro Preto e pelos intermináveis muros de pedra de Arraias, na parte setecentista do moderníssimo Estado de Tocantins.
Com o correr dos anos esqueceram-se tais origens. Afinal, os muros de pedra têm alta durabilidade, e a pedra Goiás é abundante em toda a região. Usaram-na também, depois, para o cercamento de roças, de animais e de quintais citadinos.
Bartolomeu Bueno, o Anhanguera Filho, descobridor do Ribeirão dos Goiases, seguramente teve dentro da Cidade de Goiás datas minerais preferenciais, como, aliás, autorizava a legislação. Do melhor ouro que houvesse, havia três datas preferenciais: a D'El Rey, sacratíssima, a do descobridor e, eventualmente, a do governador da Capitania. Interesses cruzados.
O resto, João Leite, que era o Guarda-mor responsável pelo novo distrito aurífero, distribuiu-o entre os sócios da bandeira, conforme o número de escravos que tivessem e a sorte que tivessem no barranco escolhido, conforme a legislação da época. Inicialmente, seriam os do rio Vermelho, cujas margens, mesmo dentro da Cidade de Goiás, até hoje são rarefeitas de habitações, porquanto ninguém construiria sobre terrenos auríferos.
Em termos de lógica de mineração (e desconhecendo as enormes variações humanas e de ajustes cotidianos com que nos fornica a História), ousaria dizer que os primeiros alinhamentos de ranchos - embriões de futuras ruas - são aqueles que se deitam sobre o Rio Vermelho e seu afluente próximo, ribeirão de Manoel Gomes. Estariam nestes casos as ruas Direita (atual Moretti Foggia) e sua continuação na Rua do Horto. Estas, outrora, deitavam seus quintais até as margens do ribeirão Manoel Gomes. Deitando margens para o Rio Vermelho, é mais fácil identificá-las: Rua do Rosário e Rua da Cambaúba, ambas abundantes nos tais muros de pedra, construídos para desentulhamento da lavra antiga, ao pé do Rio Vermelho. Todo o terreno baixo que de ali se vê foi rebaixado pelas antigas explorações bandeirantes em 10 ou mais metros.
Não é à toa que em 1783 fosse tal o assoreamento provocado pelos dejetos auríferos, que a Notícia Geral do mesmo ano - passados 60 anos do descobrimento aurífero - informa estar o leito natural do Rio Vermelho soterrado, em alguns pontos, em cerca de três metros. Desastres ambientais são cumulativos. Hoje, o natural do rio em seus poções do médio e baixo curso,, apesar de suas vigorosas enchentes limpadoras, estaria cerca de 8 metros mais fundo, sobretudo desde que nos anos 1980 as modernas dragas mecânicas destruidoras, em busca de ouro, reabriram e em excesso carrearam milhões de toneladas de terra sobre o caudal. O povo vilaboense reagiu vigorosamente contra, naquilo que foi talvez o primeiro grito ambientalista do século 20 no centro do país.