A Cidade de Goiás, à vista da genealogia histórica das antigas capitais brasileiras é o mais perfeito exemplar hoje existente de uma linhagem, de uma morfologia urbana e cultural que vem escapando às classificações: cidade antiga dos sertões do Cerrado. Simples, heterogênea, intimista, despojada. Mimética, como a savana envolvente e as 1001 janelas diferentes, através das quais nos olha.
A geologia, desmoronada, lavada de rojões de chuva e sol ardente, as rochas estrondadas, derretendo-se em cascalhos de cristais opacos e micaxistos, com seus aluviões em permanente e rápida transformação, são o que, com muitas pescarias, vida entre águas e rochas, árvores tortas, acometem aos goianos.
O mesmo aluvionar também rói filetes de ouro primário incrustados nas rochas das montanhas. Escorre o metal para as areias do riacho, onde o antigo escravo do aventureiro branco ou já mestiço crava a sonda com verruma e saca amostras do leito e da ribanceira. O vil metal, o nobre e escasso metal, outrora padrão excelso das trocas internacionais.
Mas fraqueja o grosso ouro aluvionar superficial, como o daquela pepita famosa da Ponte do Rosário. Em 1730 chegam aos ouvidos de D. João V, notícias da diminuição superficial do ouro do Rio Vermelho e de que a bandeira de Rodrigues Tomar e Urbano do Couto já rompera para os sertões, em breve riquíssimos, de Meia Ponte e depois, do alto Tocantins, com centro na atual Niquelândia.
Por quase um século, a geologia de Goiás primeiro expele, depois faz usura do dourado metal. Mas nunca o exaure de todo.
No arraial de Santana, nos grotões do Rio Vermelho, cessara a euforia. Agora, moureja-se ouro, como em qualquer negócio comum. No vale desmatado, regos d'água quilométricos, açudes e barragens pontuam a paisagem em busca de onde lavar-se um tabuleiro rico, um cascalho promissor, durante mais 60 ou 70 anos de rendimentos declinantes. No cômputo desse tempo todo, foi uma rica e espalhada mineração, semelhante aos centros mineiros mais importantes do Brasil colonial.
A decisão de permanecer nas minas decrescentes leva a substituir a palhoça garimpeira pela casinhola de pau-a-pique, tapada com barro vagabundo escavado dali mesmo, esteiada com cernes curtos. Da mata residual sobrante nos terrenos de mineração, já não existem as árvores mais altas das beiras de córrego e tão-só paus linheiros nas capoeiras das roças espalhadas ao redor, de fertilidade natural exaurida facilmente nos solos ácidos do Cerrado.
E há uma razão maior para o minerador não ter melhor moradia: porque deslocar o escravo útil da lavra para fazer-se um palácio de barro?
A custo, tempos depois - na medida em que o pressentimento da morte acomete tanto ao senhor quanto ao escravo - vai-se transformar a pobre capela de palha e chão batido em mais duradouro edifício funerário, abençoado por Cristo e a comunhão dos Santos. Constroem não mais capelas, e sim igrejas... E Irmandades, argamassas sociológicas, fogueiras de vaidades, donas leigas dos templos.
O primeiro grande teste construtivo baseado na mesologia e aptidões dos materiais do Cerrado muito provavelmente foi a Matriz de Santana da recém-criada Vila Boa de Goiás. Baseada em planta estrangeira - e de vãos impossíveis para os singelos materiais construtivos da savana brasileira, e erguida por artífices caros e incultos - a Matriz de Goiás, sede de bispado, ruirá três vezes ao longo de dois séculos. Será o paradigma dos limites à arquitetura do cerrado, carente de boas pedras de cantaria, carente de madeiras retas e leves - a não ser a amoreira escassa - carente de mestres de obras, dos quais os melhores se ocupam com as complexidades das instalações nas novas sociedades de mineradores, que se unem para instalar custosas "fábricas de minerar" em filões de ouro a cada vez mais ralos e em topografia adversa.
Mas o arraial crescia. Os ranchos de palha substituem-se por pequeninas casas de barro telhadas, como se as vê, residuais, nos desenhos de Burchell em 1828. Tomava forma a Capital dos Goiases.