Por três vezes a Coluna Prestes entrou em Goiás. Em Julho/Agosto de 1925 vinda de Mato Grosso rumo ao Rio São Francisco, na sua riba mineira. Depois, em Setembro do mesmo ano, vinda dos Gerais de Guimarães Rosa para a outra maravilha natural de São Domingos, em Goiás, com seu enorme complexo de cavernas e o extravagante Morro do Moleque. Dali seguiu Tocantins adentro, rumo ao Nordeste Brasileiro. Era começo de Setembro e os revolucionários sofreram chuvaradas terríveis, relata o colonista Moreira Lima. A comparar-se com os dias de hoje, setenta anos depois, quando sobre o devastado Goiás - perdida pureza, no dizer de Carlos Drummond - vai-se fixando uma tendência de só chover em fins de Outubro. Cinqüenta dias em que não mais as chuvas amenizam a face torturada da terra goiana. Ou a destruição do cerrado nada tem a ver com isso?
A Coluna Prestes no Planalto Central (52 KB)
Ao ser convidado para estes estudos da sócio-economia em que se insere o Parque Nacional de Brasília, entendi que esta era uma oportunidade única para acrescentar a dimensão da História aos estudos que usualmente se fazem sobre os parques nacionais e outras unidades de preservação brasileiras.
Prevendo a tendência que já se faz sentir da demanda turística pelos Parques - e que pode, a médio prazo, torná-los auto-sustentáveis do ponto de vista econômico, bem como social e politicamente defendidos - parece-nos que o levantamento da História dos Parques Nacionais, constitui um reforço não só da atração turística como um agente adicional de preservação da natureza e da cultura nacionais.
Parque Nacional de Brasília (196 KB)
A Chapada dos Veadeiros, em Goiás, celebriza-se nacionalmente pelo majestoso despenhar-se de montanhas, desde perto de 1700 metros de altura até rasos 500 metros, nas contíguas bacias amazônicas dos rios Tocantins e Paranã, formando de tanto em tanto patamares entre montanhas e vales de uma estética sutilíssima que lembra a delicadeza dos jardins japoneses. Bonzais de cerrado.
Tanto no presente quanto no passado, o cenário grandiloqüente e sutil chamou a atenção dos conhecedores tanto pela beleza do cerrado de altitude – sucessão orquestrada de jardins naturais, no dizer do Dr. Glaziou, em 1893 – quanto pela monumentalidade do seu desabar-se em altas serras sucedentes, intercaladas de ribeirões cristalinos com leitos de pedra.
Dessa forma, desde 1947 – há 53 anos – , diversas comissões técnicas e científicas, sugeriam formas de preservação da região na inteira extensão deste magnífico complexo montanhoso do Planalto Central goiano e brasileiro, chegando a ser decretado ali, em 1960, um Parque Nacional de 625 mil hectares, que, após diversas ações contrárias e protelatórias, resultou no atual Parque da Chapada, com apenas 60.000 ha.
Após meio século surge, presentemente, com a criação de uma Área de Proteção Ambiental para a região, o ensejo de resgate mínimo daquele decreto, patrocinado pelos irmãos goianos Abelardo e Jerônimo Coimbra Bueno, aos quais se devem também relevantes ações na Construção de Goiânia e na criação de Brasília.
A Chapada dos Veadeiros e o Planalto Central (40 KB)
A História do São Francisco, talvez seja das mais ricas e complexas do país, em termos temporais e espaciais, de confrontos e de amálgamas culturais, sobre os quais se move o grande cenário da edificação histórica do Brasil.
Fixemo-nos no médio vale, em sua seção mineira. Depois adentremos pelo Rio Carinhanha e a trijunção atual dos Estados de Minas, Bahia e Goiás, - a região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas -, no exercício de examinar seu tecido histórico, entre as assimétricas dobraduras geográficas do tempo. Comecemos pelo índio, velho ao menos de 11.000 anos, talvez mais ou muito mais, e que será melhor entendido adiante, quando interagir com o invasor ocidental, de cultura e raça mestiços.
Parque Nacional Grande Sertão Veredas (228 KB)
A descoberta do ouro de Minas Gerais, em fins do século 17, ocorrerá quase sempre em regiões geologicamente antiqüíssimas, naquela linha transitória entre os Campos Gerais do Cerrado e a Mata Atlântica. As mesmas transições geológicas em geral definirão os limites das minerações de ouro coloniais em Goiás, Distrito Federal, Tocantins e Mato Grosso, e nas Minas Gerais, fundadoras da mineração.
No que pesem outras sutilezas sócio-econômicas e migratórias, o Centro-Oeste do Brasil foi colonizado duas vezes, ao longo de três séculos de História. Ou melhor, colonizado e recolonizado, em termos quantitativos, geoeconômicos. Da primeira vez, com os paulistas e com os emboabas primitivos. Da segunda vez, com os brasileiros gerais vindos para as fundações de Goiânia e de Brasília - às vezes antes disso - no vigésimo século.
Leia mais...Em sua segunda e definitiva expedição no Goiases, em 1726, com animados soldados e técnicos em mineração, o Anhanguera deve ter descoberto o ouro aplatinado - ouro branco - de Caldas Velhas (pousada) e deve ter reencontrado o genro João Leite, que ficara esperando, com 40 homens, em uma roça no Ribeirão João Leite, nas imediações de Goiânia. Entra finalmente o Anhanguera na bacia do Rio Vermelho pela chapada de Ouro Fino, onde os flancos abruptos ao norte da Serra Dourada desmancham-se em suaves patamares de 800 e 700 metros e tal foi, por dois séculos, o melhor acesso ao Rio Vermelho e à Cidade de Goiás. A primeira estrada de Goiás. A Estrada Real, hoje abandonada.
Leia mais...Descoberto e fundado o arraial de Sant'Ana em 1726, no sítio da futura Cidade de Goiás, e começada a mineração dos hoje derruídos arraiais da chapada de Ouro Fino e Ferreiro, distribuídos entre os membros da expedição, continuará o grande Anhanguera Rio Vermelho abaixo, talvez na esperança de possuir um grande terreno aurífero menos retalhado, como foram aqueles primeiros, com os membros da primeira e segunda bandeiras.
Leia mais...A Cidade de Goiás, à vista da genealogia histórica das antigas capitais brasileiras é o mais perfeito exemplar hoje existente de uma linhagem, de uma morfologia urbana e cultural que vem escapando às classificações: cidade antiga dos sertões do Cerrado. Simples, heterogênea, intimista, despojada. Mimética, como a savana envolvente e as 1001 janelas diferentes, através das quais nos olha.
Leia mais...As mais extensas e quilométricas catas de ouro antigas da Cidade de Goiás e dos altos formadores do Rio Vermelho, parecem-me ser as dos terrenos argilosos, entremeados de grossas lajes de arenito. Fornecem o leito de aplainamento escorrido da Serra Dourada - sobre o qual transcorre o trecho serrano da moderna estrada que liga a Cidade de Goiás a Goiânia - desde o centro histórico de Goiás até o topo da Serra Dourada. As profundas valas que a acompanham ao lado, por muito tempo supus - e todos nós supusemos - que fossem profundas erosões causadas pela construção da atual estrada de asfalto. Não são, geralmente.
Leia mais...