Destino Anhanguerino

Descoberto e fundado o arraial de Sant'Ana em 1726, no sítio da futura Cidade de Goiás, e começada a mineração dos hoje derruídos arraiais da chapada de Ouro Fino e Ferreiro, distribuídos entre os membros da expedição, continuará o grande Anhanguera Rio Vermelho abaixo, talvez na esperança de possuir um grande terreno aurífero menos retalhado, como foram aqueles primeiros, com os membros da primeira e segunda bandeiras.

Na Barra do ribeirão dos Bugres com o Vermelho - abaixo do qual o Vermelho é menos aurífero - o Anhanguera teve grandes lavras, instalou fazenda, pacificou os remanescentes índios goiases e fundou nova rancharia ou arraial, com capela e escrivão de seus atos, como a autoridade plenipotenciária que era. O arraial da Barra, hoje Buenolândia.

Entrementes, em pouco tempo, levas de garimpeiros somariam algo como 5.000 pessoas, buscando sobretudo os terrenos da atual Cidade de Goiás e os da anexa Chapada do Ouro Fino.

Os parentes e amigos do Anhanguera - se não são dos meus, quem haveriam de sê-los? Dos inimigos? Avançam sobre as mais auspiciosas riquezas vistas pela bandeira fundadora e, de imediato, sobre a antigamente chamada Serra do Cabassaco, hoje com diversos nomes, mediadora e divisora entre o vale do Rio Vermelho e o Rio do Peixe. Ali descobrem grandes derrames auríferos e fundam os arraiais da Onça, Antas e Santa Rita. O genro Domingos do Prado (1734) descobriu (bastante longe, ao norte) Crixás, ainda hoje uma das principais minas de ouro do país. Sobrinhos e cunhados descobriram placeres ricos que lhes guardam o nome, a exemplo das cidadezinhas de Guarinos e Calhamares, ou a encantadora Natividade, capital histórica do Estado do Tocantins, fundada por um parente próximo do Anhanguera, certo Ferraz de Araújo.

As perseguições notáveis, movidas desde 1729, pelos novos ladravases assassinos responsáveis pelo governo de São Paulo - Caldeira Pimentel e Sebastião do Rego - contra o Anhanguera e os paulistas de Goiás, culminam com o assassinato de seu genro João Leite, em 1730.

Nesse ínterim, erguem-se as casas por sobre a cascalheira já despojada das folhetas finíssimas, às vezes do granete dourado, como aquele que se viu junto à Ponte do Rosário, no socavão aberto na margem em que no futuro se erguerá a Casa de Cora Coralina. Ali, de uma só bateada, reza a crônica histórica, retirou-se da lama do rio, talvez em poucas horas, 250 gramas de ouro: US$ 20 mil dólares a custos modernos. De imediato, de onde se boliu o lodo, golfa a água suja de terra. De ponta a ponta escava-se o alto curso do Rio (primeiramente chamado das Cambaúbas, pela quantidade dessas árvores) e logo escorrendo lama das minerações desde Ouro Fino, Ferreiro, Batatal, - de Rio Vermelho -, o histórico caudal que divide ao meio a Cidade de Goiás.

Sempre houve dúvidas quanto ao primeiro arraial montado em torno a um ou outro desses garimpos, o que é irrelevante em verdade, pois todos tiveram suas provisórias rancharias de palha mais ou menos concomitantes - tornados arraiais os mais populosos, em função da densidade das lavras vizinhas. Além disso, o que em verdade diferencia e crava a decisão de permanência do acampamento de palha é a capela - nem tanto para rogar a Deus (existem os oratórios portáteis) - mas para prover terra consagrada para o endereço último dos mortos. Sepulturas. As antigas igrejas, verdadeiros mausoléus.

Em 1729 o vigário Pedro Brandão - eminência parda do Anhanguera descobridor e superintendente - jacta-se de escolher a invocação de Santana para a nova capela rústica, provavelmente coberta de palhas, do lugar das Cambaúbas. Estando a mineração da Barra ocupada pelo Anhanguera e seu genro Ortiz, e Ouro Fino e Ferreiro talvez pela gente integrante da bandeira fundadora de 1726, os novos chegantes afluiriam para o talvez mais rico descoberto de Santana, que logo deve ter-se feito mais populoso do que os outros.

Vencido pela evidência dos fatos, o plenipotenciário Anhanguera mudou para lá seu domicílio, depois da delegação frustrada, passada ao sobrinho Antônio Ferraz, homem de gênio inflamado, de aplacar as turbulências no novo arraial. Daí para frente, toda a historiografia goiana e paulista editada (e às vezes inédita) relata as desditas sucessivas do velho Anhanguera pelos próximos 15 anos, agravados desde 1735 pela nomeação das primeiras grandes autoridades reinóis para Goiás e só honorificamente resgatados pela corte portuguesa pouco antes de sua morte, em 1740, aos 88 anos de idade. Tivera tempo, porém, sobretudo na adversidade, de lançar as bases do ferrenho espírito familiar doméstico e umbilical que até hoje caracteriza as famílias goianas.