A descoberta do ouro de Minas Gerais, em fins do século 17, ocorrerá quase sempre em regiões geologicamente antiqüíssimas, naquela linha transitória entre os Campos Gerais do Cerrado e a Mata Atlântica. As mesmas transições geológicas em geral definirão os limites das minerações de ouro coloniais em Goiás, Distrito Federal, Tocantins e Mato Grosso, e nas Minas Gerais, fundadoras da mineração.
No que pesem outras sutilezas sócio-econômicas e migratórias, o Centro-Oeste do Brasil foi colonizado duas vezes, ao longo de três séculos de História. Ou melhor, colonizado e recolonizado, em termos quantitativos, geoeconômicos. Da primeira vez, com os paulistas e com os emboabas primitivos. Da segunda vez, com os brasileiros gerais vindos para as fundações de Goiânia e de Brasília - às vezes antes disso - no vigésimo século.
O cerratense indígena eclipsou-se na história. Os bandeirantes paulistas vindos do sul e os padres jesuítas vindos do Grão-Pará incomodaram os indígenas do Araguaia/Tocantins, mas não deixaram marcas no território. Estas vieram com os mineradores, na verdade garimpeiros donos de legiões de escravos. Após Minas Gerais, a conquista foi rapidíssima: Cuiabá (1719), Vila Boa de Goiás (1726), Pirenópolis (antiga Meia Ponte, 1731), Niquelândia (São José do Tocantins, 1735), Natividade (1738).
Paracatu - MG (1744), e Santa Luzia (Luziânia, 1746), foram as últimas grandes minerações coloniais do Brasil, já no Cerrado central. Eis que em pouco mais de 20 anos, em seus extremos, os Cerrados auríferos de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, o Distrito Federal, o centro-noroeste de Minas e o Triângulo Mineiro foram devassados e precariamente povoados. O centro do continente caíra em mãos portuguesas.
Em 1749 criam-se as capitanias de Goiás e do Mato Grosso. Fora a maior e mais rápida expansão territorial contínua da história da colonização luso-brasileira. Um terço do território nacional incorporara-se à coroa portuguesa e ao Estado do Brasil. Dois milhões de quilômetros quadrados de savanas em uma vintena de anos. Arrebentara-se a linha de Tordesilhas entre a Espanha e Portugal. Batida pelos fatos consumados, a Espanha conformava-se com as enormes perdas do Tratado de Madrid: o Brasil Central e Ocidental e a grande Amazônia, vinda de arrasto.
O ouro jorra menos de um século. Primeiro, exuberante; depois, mornamente; depois, raramente. Agora desaba o circo. Assim como o bandeirante paulista vai dar - Monteiro Lobato avisa-nos - no Jeca Tatu pálido; o minerador empobrecido de Goiás vai se derramar no roceiro criador de porcos e galinhas, às vezes no criador de gado, às vezes no negociante ocioso deitado sobre o balcão de um comércio desalentado. Desmoronam-se outrora belos povoados: São Félix, Traíras, Anta... Outros adelgaçam-se em míseras magrezas. A capital Vila Boa de Goiás não cresce um palmo em um século. Vila Bela do Mato Grosso fenece e perde a condição de capital para Cuiabá.
Como sempre, os bandeirantes paulistas, mestiços com índios, os mamelucos foram os primeiros a chegar, ou seja, a colonização de todo o interior e de algumas partes do litoral brasileiro foi feita por esses brasileiros, com ou sem o apoio do Estado português, aliás, às vezes, ao seu arrepio. São também brasileiros baianos e pernambucanos os sertanistas que atingiram o Tocantins em 1697.
O ouro, descoberto sucessivamente em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, nos anos iniciais de 1700, ocorreu em tal volume ao longo de um século que possibilitou ao Brasil a aquisição de quase metade de sua massa territorial presente. Ao mercado internacional forneceu poderosa injeção de recursos para o então vigente padrão metálico de trocas, de sorte que o mundo moderno passa pelos excessos do ouro brasileiro, fazendo vibrar os princípios da industrialização da Inglaterra, grande beneficiária do ouro português e brasileiro. E as arcas do Vaticano, atestam os historiadores portugueses.
Duzentos anos antes de Brasília, rasgou-se a estrada tropeira fundamental à manutenção das minas do oeste: a que ligava Salvador da Bahia, ainda capital, à Vila Bela da Santíssima Trindade, no Rio Guaporé - fronteira com a Bolívia - capital antiga de Mato Grosso. A Estrada Real, com postos para arrecadação dos impostos coloniais.
De Salvador transpunha o São Francisco em Carinhanha e trespassava o Sertão do Campo Aberto (Distrito Federal) ao meio. Atingia Meia Ponte, atual vibrante cidade turística de Pirenópolis, com suas cachoeiras vertendo do maciço dos Montes Pireneus. Ali se cruzava com a estrada do Sul e do Norte/Nordeste do Brasil, esta última através das minas do Tocantins, descobertas nos anos 1730 por bandeirantes paulistas, pernambucanos e baianos.
Seguindo-se rumo oeste, na próxima paragem, sotoposta à Serra Dourada e abrindo-se sobre as planícies enormes das praias do Araguaia, erguia-se Vila Boa de Goiás, Cidade de Goiás, Goiás Velha, a capital fundada pelo Anhanguera em 1726 e que comandou toda a enorme área original goiana - incluía o Triângulo Mineiro, Carolina-MA, Tocantins e o D.F. - até a construção de Goiânia nos anos 1930.
Em Goiás, a massa famélica de mineradores há muito já rompera a linha de Tordesilhas. Do Congresso Nacional em Brasília até a famosa divisória entre Portugal e Espanha não vão mais do que 70 km. Obra das famosas bandeiras paulistas com seus mamelucos.